terça-feira, 9 de abril de 2013

A marcha humana normal


A marcha é uma tarefa motora que envolve um padrão complexo de contrações musculares em diversos segmentos do corpo. Pensando em termos biomecânicos, a marcha pode ser vista como o deslocamento do centro de gravidade do corpo através do espaço com o menor consumo de energia possível.

*Passo: distância entre o toque do calcanhar de um pé e o toque seguinte do calcanhar do outro pé.

*Passada: distancia entre o toque do calcanhar de um pé e o toque seguinte do calcanhar deste mesmo pé. Uma passada corresponde a dois passos.


1 Requisitos para a realização da marcha

Para que a marcha individual possa ser realizada dentro dos padrões considerados normais, é necessário que quatro critérios estejam em harmonia:
  • Integridade músculo-esquelética: todo o sistema músculo-esquelético, e isso inclui ossos, músculos e articulações, devem estar em perfeito estado físico e integrados entre si;
  • Controle neurológico: o comando cerebral e a resposta muscular devem estar em perfeita sintonia e sem nenhuma condição patológica, assim como a propriocepção do indivíduo e os estímulos visuais, vestibulares, auditivos, sensitivos e motores;
  • Equilíbrio: capacidade de o indivíduo assumir e manter ortostatismo;
  • Locomoção: capacidade de iniciar e manter um movimento.

2 Ciclo da marcha

Período que compreende desde o contato de um pé ao solo até o contato seguinte desse mesmo pé. É a descrição de eventos ocorridos em um membro inferior entre dois contatos consecutivos de um mesmo pé.
O ciclo da marcha é dividido em duas fases bem distintas: a fase de apoio, onde o pé toca o solo; e a fase de balanço, onde o pé não está em contato com o solo.

2.1 Fase de apoio
  • Toque do calcanhar: o ciclo começa assim que o calcanhar do membro referido toca o solo;
  • Fase de contato: fase onde o pé estará plano e em contato com o solo. Nesta fase, o peso corporal está distribuído por toda a superfície plantar;
  • Apoio médio: o pé ainda estará em total contato com o solo, porém o peso corporal será transferido para a região anterior do pé;
  • Saída do calcanhar: fase em que o calcanhar se desprende do solo. Nesta fase, a tíbia é deslocada anteriormente;
  • Propulsão: o pé perde contato com o solo e começa a fase de balanço. Neste momento, o corpo do indivíduo é impulsionado para frente.

2.2 Fase de balanço
  • Aceleração: fase em que o pé se eleva do solo e acelera para frente e para cima;
  • Oscilação média: ápice da aceleração do segmento. Neste momento alcança a maior elevação em relação ao solo;
  • Desaceleração: período em que o segmento desacelera o movimento e segue até que o calcanhar toque o solo e comece outro ciclo da marcha

3 Ativação muscular durante a marcha

As ações musculares na marcha humana ocorrem para: aceleração dos segmentos, frenagem moderada de uma aceleração, amortecimento dos choques e vibrações, e garantia de estabilidade articular.
A ação concêntrica dos músculos está presente tanto no início da fase de apoio como no início da fase de balanço. Serve para a impulsão e aceleração do segmento no inicio da oscilação e na transferência de peso durante a fase de duplo apoio.
A maior parte das ações musculares na marcha são isométricas ou excêntricas. Elas ocorrem para equilibrar e desacelerar os deslocamentos dos segmentos corporais e do centro de gravidade. O trabalho permite a absorção e o armazenamento de energia elástica.

3.1 Tibial anterior
É ativado de forma isométrica. O maior pico de contração desse músculo é durante a fase de apoio inicial. Na fase de contato atua de forma excêntrica durante o aplanamento do pé. Na passagem para o apoio médio, vai atuar de forma concêntrica ajudando no avanço da tíbia. Na fase de balanço, para evitar que o pé caia, vai realizar contração isométrica para mantê-lo na posição neutra.

3.2 Tríceps sural
Sua atividade inicial acontece na fase de contato, com o pé plano, atuando excentricamente para retardar e controlar o avanço da tíbia. Na fase de elevação do calcanhar e propulsão, irão atuar de forma concêntrica para elevar o calcanhar do solo e iniciar a fase de aceleração e balanço.

3.3 Quadríceps
Atuam isometricamente na fase de contato inicial. Já na fase de duplo apoio, atua excentricamente para frear a flexão de joelho. Atuarão de forma concêntrica na fase de desaceleração estendendo o joelho, para iniciar a fase de contato inicial.

3.4 Isquiotibiais
Começam a trabalhar isometricamente na fase de contato inicial, freando a flexão do quadril. Na fase de balanço atua flexionando o joelho na fase de aceleração até a oscilação média. A partir da oscilação média até a oscilação final irá atuar excentricamente, controlando a extensão do joelho e desacelerando o segmento.

3.5 Abdutores
Se contraem para estabilizar a pelve durante a fase de contato inicial e na fase de apoio único.

3.6 Adutores
Se contraem para estabilizar a pelve durante a fase de contato inicial e na fase de aceleração flexionando o quadril.

3.7 Fibulares
Possui atividade semelhante a do tríceps, com a contração iniciando na fase de apoio e indo ao máximo na elevação do calcanhar.

3.8 Glúteo máximo
Começa ao toque do calcanhar ao solo, de forma isométrica, impedindo a flexão da pelve, e vai até a fase de apoio médio, de forma concêntrica, promovendo a extensão da pelve.

3.9 Eretores da espinha
Mantém uma atividade constante durante a marcha, com picos de contração nas fases de contato inicial e apoio médio.

4 Principais deslocamentos do corpo durante o ciclo da marcha

  • Pelve: se inclina, gira e oscila;
  • Membros inferiores: se deslocam nos três planos espaciais, fazendo flexão e extensão, adução e abdução e as rotações mediais e laterais;
  • Cintura escapular: realiza rotação contralateral à pelve, dissociação;
  • Membros superiores: balançam em direção contrária aos movimentos pélvicos e de membros inferiores.

5 Visualização da marcha nos planos

  • Sagital: oscilação vertical da cabeça e pelve;
  • Frontal: oscilação lateral da cabeça e pelve;
  • Horizontal: rotação da cintura escapular e da cintura pélvica.

6 Avaliação fisioterapeutica da marcha

A avaliação da marcha é fundamental na descoberta de causas de patologias músculo-esqueléticas, nas causas de alterações posturais, e no plano de tratamento e treinamento de desportistas.
Existem vários métodos para se avaliar a marcha. É interessante que o paciente seja avaliado antes mesmo de entrar no consultório, visto que ele tenderá a corrigir a passada quando estiver sendo avaliado.

6.1 Exame físico
  • Força muscular: uso da escala de oxford;
  • Controle moto-neural: teste da resposta neuronal a um estímulo externo (reflexo tendíneo);
  • Goniometria: medidas de mensuração da amplitude articular;
  • Antropometria estática e dinâmica: medidas de comprimento de segmentos corporais.

6.2 Vídeo
Paciente estará utilizando o mínimo de roupas possível e será gravado um vídeo da sua deambulação em um espaço durante um período determinado. Serão avaliados os padrões posturais, o posicionamento articular, a mobilidade e dissociação da cintura escapular e pélvica, vício de marcha.
Este exame também pode ser realizado apenas a olho nu.

6.3 Medições temporais
  • Comprimento do ciclo de marcha (passada)
  • Comprimento do passo
  • Largura do passo
  • Cadência – passos/minuto
  • Velocidade – cadência x comprimento do passo

6.4 Eletromiografia
  • Fases de ativação muscular
  • Tempos musculares

6.5 Potência muscular
  • Gerada: concêntrica
  • Absorvida: excêntrica

6.6 Gasto energético
  • Consumo de O2
  • Economia muscular: pode ser conseguida pela estabilidade articular resultante da adequada colocação no espaço + a direção da força de reação ao solo + trabalho ligamentar
  • Alongamento muscular: 3x mais eficiente que seu encurtamento

6.7 Baropodometria
  • Distribuição do peso corporal sob a superfície plantar;
  • Tipo de pé;
  • Desvios patológicos do pé.

Referências

SOUSA, ASP; TAVARES, JMRS. Controle postural e marcha humana: análise multifactorial. Universidade do Porto, 2010.
MANN, L; TEIXEIRA, CS; MOTA, CB. A marcha humana: interferências de cargas e de diferentes situações. Unipar, nol. 12, nº 3, 2008.
MAFRA, NR. Processamento de sinal na avaliação clínica da marcha humana. 2012. 46f. Dissertação (Mestrado integrado em Bioengenharia). Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, Porto, 2012.
SOUSA, ASP; TAVARES, JMRS. A marcha humana: uma abordagem biomecânica. 1º ICH Gaia-Porto, 2010.
PIFFER, G; BALBINOT, A. Desenvolvimento de um protótipo de plataforma de força de pequeno porte para marcha humana. UFRGS, 2010.

sábado, 6 de abril de 2013

Adaptações cardiovasculares ao exercício físico


O exercício físico caracteriza-se por uma situação que retira o organismo da sua homeostase, pois implica no aumento da demanda energética da musculatura exercitada e, consequentemente, do organismo como um todo. Desta maneira, para suprir a demanda metabólica, várias adaptações fisiológicas são necessárias.
Para que esta homeostasia seja mantida, tanto o sistema respiratório quanto o sistema cardiovascular devem funcionar em conjunto liberando quantidades suficientes de oxigênio e nutrientes e removendo produtos do metabolismo de outros tecidos do organismo.
O aumento da necessidade de oxigênio como uma conseqüência do exercício físico é um dos principais desafios da homeostasia metabólica, uma vez que a demanda pode ser de 15 a 25 vezes maior que a demanda no repouso.

1 Adaptações cardiovasculares agudas ao treinamento

As respostas cardiovasculares agudas variam de acordo com o tipo, intensidade e duração do exercício e a massa muscular relacionada.

1.1 Tipo de exercício
  • Exercícios estáticos – isométricos: observa-se aumento da FC com manutenção ou até redução do VS e pequeno acréscimo do DC. Em compensação, verifica-se aumento da resistência vascular periférica, que resulta na elevação da PA sistêmica. Esses efeitos ocorrem porque a contração muscular mantida durante a contração isotônica promove obstrução mecânica do fluxo sanguíneo muscular, o que faz com que os metabólicos produzidos se acumulem, ativando quimiorreceptores musculares que promovem aumento expressivo da atividade nervosa simpática.
  • Exercícios dinâmicos – isotônicos: durante este tipo de exercício, as contrações musculares são seguidas da movimentação articular, o que impede o aumento da resistência vascular periférica pelo bloqueio vascular imposto pela contração muscular, além da produção de metabólicos musculares que promovem a vasodilatação. Neste tipo de exercício, também se observa aumento da atividade nervosa simpática, que é desencadeada pela ativação do comando central, mecanorreceptores musculares e, dependendo da intensidade do exercício, metaborreceptores musculares, o que leva ao aumento da FC, do VS e do DC.

Embora as respostas cardiovasculares sejam distintas dependendo do tipo de exercício escolhido, na prática os exercícios realizados possuem características mistas, de modo que as respostas cardiovasculares irão depender da contribuição de cada um desses componentes na atividade. Por exemplo, os exercícios de musculação, quando executados em alta intensidade, apesar de serem feitos de forma dinâmica, apresentam componente isométrico bastante elevado, portanto, irão desencadear alterações referentes a este tipo de exercício. Em contrapartida, os exercícios aeróbicos apresentam mais características dinâmicas que estáticas, o que ocasionará alterações mais relacionadas com os exercícios dinâmicos.

1.2 Intensidade X duração
Quanto maior a intensidade, maior as alterações.
Quanto maior a duração com alta intensidade, maior as alterações.
Se a intensidade for inferior ao limiar anaeróbio, as alterações não irão acontecer, mesmo se o exercício for realizado em longa duração.

1.3 Massa muscular
Quanto maior a massa muscular exercitada de forma dinâmica, maior é o aumento da FC, mas menor é o aumento da PA.

1.4 Hipotensão pós-exercício
Caracteriza-se pela redução da PA durante o período de repouso, fazendo com que os valores pressóricos observados pós-exercício sejam inferiores aos valores antes do exercício ou até mesmo menor que os valores medidos em um dia controle, sem exercícios físicos.
Para que a hipotensão pós-exercício tenha importância clínica, é necessário que ela tenha grande magnitude e/ou perdure por mais de 24h.
A hipotensão pós-exercício é mais comum em exercícios aeróbios com intensidade leve a moderada, porém em longas durações. Contudo, exercícios resistidos de baixa ou alta intensidade podem reduzir a PA sistólica.
Independente do mecanismo hemodinâmico sistêmico, a resistência vascular estará reduzida após o exercício e isto se deve à vasodilatação muscular mantida após o exercício.

2 Adaptações cardiovasculares crônicas ao exercício


Em resposta ao treinamento físico, algumas alterações cardiovasculares acontecem. Uma resposta aguda é aquela que servirá tanto para uma pessoa sedentária quanto para um atleta ao realizar a mesma atividade física. A resposta crônica, por sua vez, é a adaptação da estrutura e sua função após a realização contínua de determinada atividade física e isso se dá através do treinamento.

2.1 Volume plasmático
O treinamento de endurance faz o aumentar o volume sanguíneo, sendo que esse efeito é maior com o treinamento intenso.
  • O exercício aumenta a liberação do hormônio antidiurético e da aldosterona, o que impede a dispersão de líquidos
  • O exercício aumenta a quantidade de proteínas plasmáticas, principalmente da albumina, que são responsáveis pela pressão osmótica do sangue
  • O número real de eritrócitos aumenta com o treinamento de endurance, contudo, se comparada com o aumento do volume plasmático, este diminui
A relação entre o aumento do volume plasmático e do volume celular resultam em uma aumento da porção líquida sanguínea, o que reduz a viscosidade do sangue, o que, consequentemente, pode facilitar o movimento do sangue nos vasos sanguíneos.

2.2 Hipertrofia excêntrica
O músculo cardíaco, assim como o músculo esquelético, sofre hipertrofia como resultado do treinamento de endurance crônico. O ventrículo esquerdo, que é a câmara cardíaca que tem trabalho mais intenso, é quem sofre as maiores alterações, podendo ter aumento de seu volume em até 85% de seu tamanho normal.

2.3 Volume de ejeção
Como resultado do treinamento de endurance, o volume de ejeção apresenta um aumento global. A massa muscular ventricular aumentada pode produzir uma contração mais forte.
Este aumento de contratibilidade aumenta, consequentemente, a retração elástica do miocárdio, que resulta em um maior enchimento diastólico. Uma maior quantidade de sangue entra no ventrículo esquerdo e uma maior porcentagem do sangue que entra é expulsa do ventrículo a cada contração, aumentando assim o volume de ejeção.
  • Mecanismo de Frank-Starling: o principal fator no controle do volume de ejeção é a magnitude do volume de distensão. Quando o ventrículo se distende mais, ele se contrai com mais força.
  • Aumento do volume plasmático: a maior quantidade de sangue que entra no ventrículo aumenta a distensão das paredes ventriculares.

2.4 Frequência cardíaca
  • De repouso: Pode diminuir acentuadamente como resultado do treinamento de endurance. A freqüência cardíaca de repouso pode diminuir cerca de 1bpm por semana, durante as primeiras semanas de treinamento. Os mecanismos reais para essa diminuição não são totalmente conhecidos, mas parece que o treinamento aumenta a atividade parassimpática no coração, ao mesmo tempo em que diminui a atividade simpática.
  • Sub-máxima: o maior condicionamento aeróbico resulta numa freqüência cardíaca proporcionalmente menor numa determinada taxa de trabalho. Essas diminuições indicam que o coração se torna mais eficiente com o treinamento.
  • Máxima: tende a ser estável e geralmente permanece relativamente inalterada após um treinamento de endurance.

2.5 Recuperação da freqüência cardíaca
Após uma atividade física a freqüência cardíaca não volta ao seu estado de repouso imediatamente. Em vez disso, ela permanece alta por algum tempo, retornando lentamente ao seu nível de repouso.
Após um período de treinamento, a freqüência cardíaca volta muito mais rápido ao seu nível de repouso que antes do treinamento. Desta maneira, sua mensuração tem sido utilizada como indicador das alterações cardiovasculares ao exercício.
Vários fatores, além do nível de treinamento podem alterar a recuperação da freqüência cardíaca de repouso:
  • Ambientes quentes ou altitudes elevadas
  • Alta responsividade simpática

2.6 Interações entre a freqüência cardíaca e o volume de ejeção
Durante o exercício, a freqüência cardíaca combina com o volume de ejeção para fornecer um débito cardíaco adequado para a taxa de trabalho a ser realizada.
  • Se a freqüência cardíaca for muito elevada, a diástole é reduzida e o volume de ejeção pode ser diminuído
  • Se a freqüência cardíaca for baixa, a diástole é maior e o volume de ejeção aumenta
A combinação do volume de ejeção aumentado e da frequência cardíaca diminuída é uma forma muito eficaz para que o coração satisfaça as demandas do corpo. O coração despende menos energia contraindo mais forte e com menos freqüência em resposta ao treinamento que se a freqüência cardíaca aumentasse.
Alterações da freqüência cardíaca e do volume de ejeção em resposta ao treinamento ocorrem concomitantes e com o mesmo objetivo: aumentar a quantidade de sangue oxigenado expulso do coração com o menor gasto energético.

2.7 Débito cardíaco
Quando em repouso ou durante um exercício submáximo, o débito cardíaco não altera muito após o treinamento de endurance. Contudo, o débito cardíaco aumenta com taxas máximas de trabalho. Esse aumento é resultante principalmente do aumento do volume de ejeção.

2.8 Fluxo sanguíneo
Músculos ativos necessitam de quantidade de oxigênio e de nutrientes consideravelmente maiores. À medida que os músculos se tornam mais bem treinados, o sistema cardiovascular se adapta para aumentar o fluxo de sangue para a região. Quatro fatores são responsáveis por esse aumento de suprimento:
  • Aumento da capilarização muscular
  • Maior abertura dos capilares existentes nos músculos treinados
  • Redistribuição sanguínea mais efetiva
  • Aumento do volume sanguíneo

2.9 Pressão arterial
Durante os exercícios de endurance observa-se um aumento da pressão arterial sistólica e manutenção ou redução da pressão diastólica. No entanto, a pressão arterial de repouso, tanto sistólica como diastólica, diminuem. Os mecanismos para essa redução ainda são desconhecidos.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Disfunção Temporo Mandibular (DTM)


A ATM é uma das articulações mais movimentadas do corpo, podendo realizar até 2000 movimentos diários durante a fala, a mastigação, deglutição, entre outros.

Existem duas articulações temporomandibulares, localizadas anteriormente ao ouvido externo, na qual os côndilos, localizados nos dois extremos da mandíbula, funcionam simultaneamente. As superfícies articulares são recobertas por um tecido conjuntivo fibroso denso, avascular que possui um número variável de células cartilaginosas, lhe conferindo a característica de uma articulação fibrocartilaginosa.

ATM funcional

- Abertura da boca: aproximadamente a 40mm;
- Movimento lateral: amplo e simétrico;
- Ausência de ruídos e/ou desvios laterais durante a movimentação articular de abertura e fechamento da boca;
- Ausência de desgaste excessivo da dentição;
- Ausência de dor;
- Mastigação eficiente.

Disfunção temporomandibular (DTM)
Refere-se a qualquer disfunção nas características funcionais acima citadas. Constatação de desarmonia funcional entre os componentes da articulação causando mudanças patológicas na ATM.

1 Avaliação da ATM

1.1 Anamnese

  • Perguntas pertencentes ao sistema mastigatório: presença de ruído; presença de dor ao movimento; dificuldade de movimento; restrição da abertura da boca
  • Dor: contínua, localizada, constante (dor de origem muscular); rítmica, periódica, intermitente (dor de origem vascular); breve, momentânea, passageira (dor de origem neurogênica)
  • Distúrbios de sono
  • Estilo de vida: atividades, exercícios físicos, hábitos alimentares, ingestão de cafeína, consumo de álcool, cigarro e uso de drogas

1.2 Palpação

  • Muscular: palpar bilateralmente, exercendo sempre a mesma pressão. Procurar alteração de sensibilidade e dor à palpação. Deve-se palpar os músculos masseteres, temporais, pterigóideos laterais e mediais, esplênicos, trapézios superiores, escalenos, elevadores da escápula e esternocleidoocciptomastóideo.
  • Articular: palpa-se primeiramente a região lateral, que quando sensível indicará capsulite lateral; palpa-se a região posterior, que se tiver algum achado pode indicar a existência de uma inflamação retrodiscal; palpa-se a região ântero-superior, que se referir dor pode indicar inflamação na região anterior da cápsula articular.
  • Dinâmica: avaliamos os movimentos de abertura e fechamento, se ocorrem desvios, travamentos, rigidez à manipulação, movimentos de laterotrusão e protusão; avaliamos também a presença de ruídos durante a realização de um dos movimentos da ATM (abertura, fechamento, lateralização, protrusão e retrusão).

1.3 Ausculta

  • Crepitações: implicam em degeneração do disco, significando normalmente, osteoartrose
  • Múltiplos cliques: indicam perfuração no disco ou alterações na forma da articulação

1.4 Medidas

  • Simetria da cabeça
  • Simetria dos dentes, maxilares e face
  • Amplitude de movimento

1.5 Teste de resistência

  • Resistência na abertura da ATM
  • Resistência no fechamento
  • Resistência na lateralização da mandíbula
  • Resistência na protusão e retrusão

1.6 Exames complementares

  • Radiografias e radiografias panorâmicas
  • Tomografias e tomografias computadorizadas
  • Artrografia
  • Ressonância magnética

2 Disfunções musculares – sinais clínicos

  • Dor miofascial: é uma desordem muscular caracterizada por sensibilidade em pontos localizados no músculo esquelético, denominado trigger points; dor referida próxima ou distante do trigger, podendo ser alterada por palpação específica; padrão consistente de dor. A dor miofascial tem etiologia multifatorial, que podem ser hábitos parafuncionais, posturas inadequadas, estresse, trauma físico, entre outros.
  • Espasmo muscular: é a desordem aguda de um músculo ou grupo muscular. Caracteriza-se por uma contração súbita involuntária, que causa dor e limitação de movimento. Dependendo dos músculos envolvidos, haverá limitação de abertura da boca e/ou má oclusão aguda, expressa pelo paciente como modificação da mordida.
  • Contratura: é o encurtamento clínico do comprimento de repouso de um músculo, sem interferência na sua habilidade de contração. A contratura muscular causa, a longo prazo, a restrição da mobilidade mandibular, ou seja, hipomobilidade articular.
  • Miosite: inflamação muscular cuja causa é local. Pode ser um trauma direto, uma infecção ou um esforço muscular exagerado. Os sinais de inflamação estarão presentes.
  • Miofibrose: é a reparação do tecido muscular por tecido conjuntivo fibrótico após uma lesão. Ocorre a presença de nódulos e aumento da massa muscular, é indolor e não desaparece.
  • Distenção; é o estiramento muscular com possibilidade de ruptura das fibras. Apresenta regiões hipersensíveis, dor na inserção muscular, diminuição da função, dor à palpação e ao movimento articular.
  • Tendinite: é uma inflamação no tendão muscular. Apresenta dor localizada, redução da função muscular, dor à palpação e ao movimento articular.
  • Doença secundária do colágeno: são disfunções secundárias à patologias sistêmicas, como o lúpus eritematoso, a artrite reumatóidea e o escleroderma.

3 Disfunções articulares

  • Disco articular deslocado com redução: é uma disfunção caracterizada por relacionamento anormal entre côndilo, disco e eminência articular. O deslocamento do disco poderá ocorrer para anterior, ântero-medial, medial e raramente posterior. Tem como característica a vibração produzida pela redução ou movimento do disco articular durante a excursão mandibular. Observa-se neste paciente desvio mandibular ipsilateral, até que ocorra a redução discal. (durante a abertura ocorre o desvio, mas quando o movimento está completo a mandíbula volta à linha medial)
  • Disco articular deslocado sem redução: a característica aguda é a limitação da abertura da boca, desvio ípsilateral acentuado na tentativa de movimento, restrição do movimento protusivo, dor articular, dor muscular e o paciente refere-se que possuía vibrações na ATM anteriores. (durante a abertura, a mandíbula se desvia para o lado, mas não retorna para a linha medial)
  • Deslocamento da ATM: quando ocorre a translação do côndilo e este ultrapassa o limite de abertura, perdendo a “congruência” com a eminência articular. Se a mandíbula retorna sem auxílio, indica-se clinicamente que o paciente sofre de uma sub-luxação da ATM. Caso ao realizar o movimento a mandíbula fique travada, diz-se que ela sofreu uma luxação articular.

4 Disfunção inflamatória

  • Capsulite: é a mais comum das disfunções inflamatórias. As causas podem ser desde microtraumas à posição inadequada da mandíbula. A DTM causa um desvio da linha mediana que produz pressão na parede lateral da cápsula, promovendo alterações funcionais da mesma. Essas alterações desencadeiam dor e inflamação nesta região, sendo interpretada como capsulite.
  • Retrodiscite: compreende a zona bilaminar, retrodiscal, da ATM, que é rica em vascularização e terminações nervosas, sendo portanto, muito suscetível à inflamação quando traumatizadas, mesmo quando este trauma seja de pequena intensidade. A zona retrodiscal inflamada, dependendo do tamanho do edema, poderá promover o deslocamento da mandíbula, alterando a oclusão do paciente.
  • Poliartrite: secundária a uma doença sistêmica.

5 Disfunções não inflamatórias

  • Osteoartrite primária: afeta os tecidos articulares e o osso subcondral. Secundariamente o paciente apresenta quadro de capsulite.
  • Osteoartrite secundária: apresenta as mesmas características da osteoartrite primária, mas está relacionada com doenças anteriormente relacionadas com a articulação, como por exemplo: traumas diretos, infecção, artrite sistêmica.
  • Anquilose: é uma restrição mandibular de abertura com desvio ipsilateral devido a uma fixação fibrosa do côndilo ao osso temporal. O tratamento da anquilose é somente cirúrgico.

6 Causas da disfunções da ATM

  • Má oclusão: quando existe uma má oclusão, ocorre um desequilíbrio muscular e um déficit na posição condilar, que pode causar um desarranjo discal. Geralmente ocorrem más oclusões graves quando os dentes posteriores são removidos e não recolocados. A má oclusão, além das disfunções da ATM, são responsáveis por perda óssea mandibular, excessiva mobilidade dos dentes e desordens musculares.
  • Fatores psicológicos: fatores psicológicos e tensão podem induzir ou agravar os sintomas da DTM.
  • Postura inadequada: a coluna cervical, a ATM e as articulações entre os dentes estão intimamente relacionadas, portanto, a má posição ou a anormalidade funcional de uma delas pode afetar a posição e a funcionalidade das outras. A alteração da posição cervical altera a posição mandibular, acometendo assim a oclusão. O equilíbrio entre os flexores e extensores da cabeça e pescoço é afetada pelos músculos da mastigação e a recíproca é verdadeira.
  • Hábitos parafuncionais: morder os lábios, pressionar a língua, morder lápis ou canetas, ranger os dentes, roer unhas, respiração bucal, sucção do polegar, método incorreto de escovação dentária, entre outros, podem levar à disfunções da ATM.

7 Tratamento

O tratamento da DTM depende da causa da disfunção e para defini-lo é necessário um exame clínico rigoroso e a análise de exames complementares: RX, tomografia, ressonância, polissonografia, eletromiografia e exame de sangue para avaliar os níveis hormonais e fatores reumatóides.
Definida a causa, o tratamento é estabelecido. Em geral, a maioria dos casos se resolve com placas acrílicas interoclusais (ajustadas periodicamente e usadas por tempo determinado, dependendo do caso), medicamentos (antiinflamatórios, analgésicos, antidepressivos, relaxantes musculares e até botox), associação com fisioterapia e biofeedback.
As cirurgias são reservadas apenas para os casos mais graves:
  • Artrocentese: lavagem da articulação sob sedação
  • Artroscopia: cirurgia intra-articular minimamente invasiva realizada por vídeo, sob sedação ou anestesia geral, para lise, lavagem ou suturas articulares
  • Discopexia: reposicionamento do disco através de suturas associadas a micro-âncoras intra-articulares
  • Artroplastia: remodelamento do contorno ósseo da articulação
  • Artroplastia total: reconstrução da articulação com implantação de prótese, comuns em casos de grandes desgastes ou presenças de tumores

8 Fisioterapia buco-maxilo-facial

A fisioterapia buco-maxilo-facial ou fisioterapia orofacial foi definida em 2004 como sendo uma especialidade da fisioterapia com conhecimentos e técnicas específicas para aliviar dores na face, região oral, cabeça e cervical, além de reestabelecer a função da articulação temporomandibular, dos músculos mastigatórios e dos músculos das regiões citadas.
Nos últimos anos essa especialidade teve uma maior divulgação devido à sua atuação nas disfunções temporomandibulares e nas cefaléias tensionais. Porém, ela vai muito mais além disto, podendo atuar em pós-operatório de correções buco-maxilo-faciais e de traumas na região facial, implantes dentários, dentre outros.
A atuação do fisioterapeuta é fundamental para um bom andamento dos casos de DTM. Isto se deve pela íntima ligação existente entre os músculos da cabeça e cervical com o sistema estomatognático, além de outras alterações mais distais, como na cadeia respiratória.
O tratamento fisioterápico favorece o retorno dos músculos à sua normalidade, além do restabelecimento dos demais componentes da articulação em questão, corrigindo não somente alterações na ATM como também alterações na cervical, torácica e lombar.

8.1 Objetivos da fisioterapia

  • Alívio da dor
  • Reeducação do sistema neuromuscular
  • Restabilização da posição de repouso mandibular
  • Coordenação muscular
  • Equilíbrio e relaxamento muscular

8.2 Técnicas fisioterápicas

  • Hidroterapia: tem como objetivo minimizar a tensão muscular, o estresse, a dor e a ansiedade; relaxamento muscular, aumento da circulação, redução da sensibilidade à dor;
  • Calor superficial, calor profundo, crioterapia, eletroterapia, biofeedback: ativar a circulação sanguínea, eliminar toxinas, acelerar os processos reparadores de tecidos, aliviar a dor e promover relaxamento muscular
  • Cinesioterapia: posicionamento lingual, retropulsão mandibular, isometria, exercícios concêntricos, mobilização mandibular passiva, tração manual, facilitação neuromuscular proprioceptiva (FNP), alongamentos
  • Drenagem linfática: redução de edema
  • Laser terapia: cicatrizante e auxilia na reorganização tecidual

9 Fisioterapia no pós-cirúrgico

Embora esta opção de tratamento seja cada vez menos frequente, as cirurgias são, na maioria das vezes, realizadas em casos graves ou específicos, apesar do procedimento poder ser motivo de agravamento de alguns problemas buco-maxilo-faciais.
Após a cirurgia, o paciente fica com o rosto edemaciado, com diminuição ou ausência de sensibilidade nos lábios, no queixo e nas bochechas. O bloqueio para a movimentação realizado logo após a cirurgia pode alterar a mobilidade da articulação. É comum que após a liberação deste bloqueio o paciente sinta dor ao movimento, redução da amplitude de movimento e fraqueza e incoordenação muscular ao mastigar.
A fisioterapia atua tanto na fase aguda quanto crônica do pós-cirúrgico. Na fase aguda atua basicamente no controle do edema facial, na prevenção de aderências teciduais e fibrose, auxilia na redução de possíveis dores na musculatura mastigatória e na coluna cervical.
Na fase crônica, após a liberação do bloqueio, a intervenção fisioterapeutica irá preconizar o ganho de amplitude até torná-los os mais funcionais possíveis, redução da parestesia, fortalecimento da musculatura mastigatória e cervical, liberação da musculatura de mímica facial e a reeducação postural.

domingo, 24 de março de 2013

Lesões nos esporte

A prática de esportes é muito benéfica para a saúde da população. Ela melhora as condições cardiorrespiratórias, controla os valores de pressão arterial, aumenta a resistência física, fortalece a musculatura, previne patologias músculo-esqueléticas, libera endorfina e serotonina, controla os níveis de colesterol e triglicérides no sangue, entre outros benefícios.
Contudo, a prática de atividades físicas de maneira inadequada pode levar à lesões músculo-esqueléticas graves. Uma postura inadequada, uma carga de treinamento elevada, a utilização de resistência acima dos valores que a pessoa possa suportar são alguns exemplos das principais causas de lesões em atletas amadores.
Na maioria dos casos, o atleta amador procura superar seus limites ou então tenta igualar seu treinamento com o de um atleta profissional. Assim, ele tende a aumentar seu treinamento de maneira não gradual e acaba realizando atividades para as quais ele ainda não está preparado. O resultado disto são lesões músculo-esqueléticas graves e agudas que, se não tratadas adequadamente, podem se tornar condições patológicas crônicas.
Em relação aos atletas de alta performance, existe uma contradição em relação aos benefícios do esporte. Ao contrário do que as pesquisas indicam sobre os benefícios da prática de atividades físicas na saúde, para o atleta de alta performance a prática de esportes está associada com condições patológicas agudas e crônicas.
Este tipo de desportista está a todo momento tendo que superar seus limites e apresentar um desempenho acima do que é considerado saudável. A carga de treinamento é intensa e exaustiva. As lesões músculo-esqueléticas agudas são comuns a este tipo de atleta e as lesões crônicas são uma certeza, principalmente as lesões mioarticulares.

1 Lesões mais comuns

1.1 Contusão
Esse tipo de lesão é comum em todos os tipos de esporte, principalmente nos esportes de contato. Ela é uma escoriação geralmente ocasionada por uma pancada, contudo, não é um tipo de lesão muito grave.
1.2 Luxação
Esta lesão ocorre quando acontece uma descongruencia articular, ou seja, a perda de contato entre os ossos de uma articulação. Tipo de lesão comum em jogadores de vôlei, tendo como as articulações mais acometidas as articulações interfalangeanas e a articulação glenoumeral.
1.3 Tendinite
É uma inflamação de um tendão e ocorre principalmente quando se é necessário a repetição de um determinado movimento. Todos os tipos de atletas estão predispostos a apresentar este tipo de lesão, principalmente se não costumam realizar alongamentos.
1.4 Entorse
A entorse é uma lesão que acontece quando a articulação sofre algum dano, como o deslocamento dos ossos ou até mesmo a ruptura parcial de algum ligamento. É um tipo de lesão que não possui nenhum precedente, podendo ser causada até por um tropeço. Atinge principalmente as articulações de membro inferior.
1.5 Distensão muscular
Também conhecida como estiramento muscular, é uma ruptura das fibras dos músculos ou da fáscia muscular. Na maioria dos casos é causada por um grande esforço ou estresses muscular.
1.6 Ruptura de tendão ou ligamento
Principal vilão dos atletas, pois deixa o desportista incapacitado de praticar o esporte. A ruptura de um tendão ou de um ligamento acontece devido a um grande esforço sobre essa área, diminuindo a sua resistência. Esse tipo de lesão ocorre quando o desportista realiza um movimento errado ou realiza uma desaceleração.
1.7 Fratura
É uma ruptura do osso, causando sua descontinuidade. Pode ser causada por estresse, pancada ou até mesmo o excesso de treino.

2 Lesões causadas por overtraining

2.1 Supertreinamento: pode ser resultado de exercícios de curta duração e alta intensidade ou por exercícios de longa duração e baixa intensidade. A prevenção para essas lesões é evitar grandes volumes no aumento da duração ou da intensidade desse treinamento, sendo indicado um aumento de 10% por semana.
2.2 Uso de calçado inadequado: com a tecnologia atual é possível encontrar calçados adequados para cada atividade física. Contudo, se o calçado for inadequado para a modalidade física, podem ser desenvolvidas dores crônicas nos pés, tornozelos, joelhos e coluna.
2.3 Alimentação inadequada e desidratação: estar atento a hidratação antes, durante e após a realização da atividade física, estando sempre atento ao controle dos eletrólitos que são perdidos durante a transpiração. Também é importante a nutrição balanceada baseada na tríade carboidratos, lipídeos e proteínas, lembrando que antes da realização de atividade física é importante a ingestão de carboidratos.

3 Prevenção – Forma de tratamento mais eficaz

·         Estudar rigorosamente a sessão programada
·         Analisar os riscos de cada exercício
·         Avaliar clínica, física e psicologicamente o atleta
·         Fazer um treinamento específico para cada modalidade. Atletas de fim de semana são mais propensos à lesões
·         Fazer alongamento antes e depois de qualquer atividade física
·         Manter sempre o equilíbrio muscular, ou seja, a força
·         Conhecer bem as regras do esporte que será realizado
·         Usar os equipamentos de proteção e as roupas de cada esporte

4 Orientação para os primeiros socorros – Até 24h após a lesão

  • Repouso: a estrutura lesada deverá ficar em repouso imediato, respeitando-se a dor do atleta
  • Gelo: aplicar gelo na superfície lesada a cada 2h
  • Compressão: a compressão da área afetada controla o edema e o hematoma
  • Elevação do membro afetado: é importante para evitar a reação inflamatória, pois favorece o retorno venoso, diminuindo a formação de edemas e hematomas
  • O que não fazer
    • Calor: evitar qualquer forma de calor na região, pois estimula a circulação local, o que pode provocar edema e hematoma
    • Álcool: não ingerir bebidas alcoólicas, pois possuem características vasodilatadoras
    • Massagem: não é indicada na fase aguda ou inflamatória, pois pode aumentar o edema

5 Objetivos da fisioterapia desportiva

Em qualquer lesão, ocorrem eventos fisiológicos específicos em resposta ao traumatismo. Cabe ao fisioterapeuta reduzir a gravidade desses efeitos fisiológicos, optimizar o tempo de cicatrização e devolver o atleta à competição o mais cedo possível sem comprometer seu bem-estar.
  • Eliminar a dor
  • Recuperar a mobilidade e a estabilidade da área lesada
  • Recuperar a flexibilidade e força da musculatura envolvida
  • Planejar o retorno ao treinamento específico através de um treinamento proprioceptivo, para ganho de segurança, confiança, força, agilidade e coordenação
Quando se fala de tratamento aos atletas lesados, condição inerente ao esporte e frequente durante todo o ano, é necessário compreender o protocolo, onde o então paciente deve ser encaminhado para o departamento Médico-fisioterápico para uma avaliação médica e fisioterapeutica para elaboração do diagnóstico e tratamento a ser realizado, este último sendo prescrito e supervisionado pelo fisioterapeuta.
O retorno pleno do atleta é progressivo e gradual, respeitando sempre o equilíbrio entre sua capacidade e a demanda das atividades. O processo do veto ou liberação do atleta para a prática esportiva, treinos e jogos é uma decisão conjunta entre médico e fisioterapeuta.

5.1 Técnicas para reabilitação

O uso de várias modalidades terapêuticas pode ser essencial no controle e na redução das respostas fisiológicas. Se um programa de reabilitação não for instituído de combinações entre as seguintes modalidades, o ciclo da lesão poderá prosseguir:
  • Eletrotermofototerapia: estimulação e potencialização muscular, remição cicatricial, controle da dor
  • Mecanoterapia: fortalecimento progressivo resistido
  • Cinesioterapia: fortalecimento com resistência elástica, alongamentos, exercícios posturais...
  • Terapia manual: atuação nos desarranjos posturais, métodos para ganhar amplitude de movimento, diminuição da dor, liberação miofascial...
  • Treino funcional: processo de reabilitação final, seguindo o princípio da especificidade
  • Exercícios proprioceptivos: melhora a resposta sensório-motora para a prática esportiva e proteção mioarticular
  • Massoterapia: tratamento para contraturas e espasmos musculares
  • Estabilização segmentar – Core Training e Pilates: fortalecimento da região pélvica, abdominal e paravertebral
  • Bandagem funcional: atua na limitação de movimentos preservando a área lesada e na diminuição do quadro de dor em injúrias miofascial
O exercício precoce é essencial para a reabilitação do atleta. Eles podem aprimorar sua condição física pós-lesão em cerca de 1% ao dia, enquanto perdem cerca de 3-7% caso permaneçam completamente inativos. Portanto, quanto mais longo o período de tempo de inatividade do atleta, mais longo será o período necessário para completar o programa de reabilitação.

5.2 Programa de reabilitação

Cada programa de reabilitação deve ser individualizado, levando em consideração as características físicas e esportivas do atleta, o tipo e grau de lesão, lesões secundárias, a resposta ao tratamento... Um programa de fisioterapia deve ser elaborado de forma a atender as necessidades do atleta, abordar as deficiências específicas e levar em conta as demandas funcionais específicas do atleta para cada atividade física, por isso a importância de uma avaliação fisioterapêutica adequada.
Antes de iniciar um programa de reabilitação, o fisioterapeuta, o técnico e o atleta deverão elaborar um conjunto de objetivos de curto, médio e longo prazo, baseados na lesão do atleta, no procedimento cirúrgico realizado e na necessidade de competição. Os objetivos podem ser delineados em relação à amplitude de movimento, à sustentação do peso e à progressão da resistência nos exercícios.
O uso de protocolos de reabilitação preestabelecidos como diretrizes para a progressão do atleta através do programa de reabilitação pode ser valioso. Estes deverão se fundamentar em princípios derivados sobre o tempo de cicatrização lesional e cinemática articular.
O avanço da reabilitação do atleta deverá basear-se na avaliação diária do fisioterapeuta, quanto aos relatos subjetivos e os achados objetivos. A progressão de uma fase para a outra deverá ocorrer depois que o atleta alcançar os objetivos da fase atual.

5.5 Avaliação fisioterapeutica pós-lesional

A avaliação adequada de uma lesão é primordial para a prescrição de um tratamento. É necessário conhecer a principal queixa do paciente, o mecanismo de lesão, os sinais e sintomas aparentes e a gravidade da lesão.
Para tanto, deve ser realizada uma anamnese detalhada, buscando identificar as causas principais e secundárias da lesão; uma avaliação física com testes específicos para o tipo de lesão relatada e possíveis lesões secundárias; uma inspeção e palpação para a identificação de pontos dolorosos e alterações estruturais; teste de força muscular; análise dos exames complementares, que dirão a extensão da lesão... A partir dos resultados da avaliação, é possível criar um programa de tratamento.
Após o início do programa, é primordial a reavaliação do atleta, para se ter uma noção do avanço no tratamento. Nem sempre uma modalidade de tratamento surti o efeito desejado em determinado atleta e é nas reavaliações que o fisioterapeuta poderá ter um feedback da escolha do programa. Além disso, causas externas ao treinamento também podem interferir na evolução da reabilitação e a identificação e correção dessas causas são fundamentais para o sucesso do programa.

5.4 Fisioterapia desportiva preventiva

A fisioterapia desportiva dedica-se não somente a reabilitação do atleta lesionado, mas também à adoção de medidas preventivas a fim de reduzir a ocorrência de lesões. Um trabalho adequado preventivo, além de melhorar a performance dos atletas, certamente trás economia para o grupo/equipe, sendo necessário menos recursos financeiros no tratamento dessas lesões.
A fisioterapia desportiva tem buscado as mais diversas possibilidades para que cada vez menos lesões venham ocorrer durante estas atividades esportivas. Um exemplo são as atividades proprioceptivas, que, implementadas no dia-a-dia dos atletas, têm demonstrado a eficácia no equilíbrio e senso de posição articular, além da melhora na resposta sensório-motora e a sua eficácia é comprovada através de diversos estudos. Além destes, o Core Training, técnica de fortalecimento e estabilização do centro do corpo, transmitindo força sinérgica aos membros e estabilidade segura aos movimentos explosivos do esporte, também traz um diferencial para os atletas.

5.5 Avaliação fisioterapeutica preventiva

A avaliação fisioterapeutica pré-participação e as reavaliações de controle são de extrema importância na prevenção e diminuição de lesões, pois o fisioterapeuta é capaz de analisar as alterações biomecânicas, aspectos fisiológicos e de treinamento de cada atleta, além dos equipamentos utilizados na prática esportiva. Atua nos fatores de risco encontrados na avaliação, prevenindo assim a ocorrência de lesões e o consequente afastamento do esporte.
  • Segurança na prática do esporte
  • Melhora do bem estar e qualidade do treinamento
  • Diminuição de queixas e desconfortos advindos da prática de esportes
  • Conforto e praticidade
  • Uso de equipamentos adequados
  • Diminuição na incidência de lesões
Para tanto, o fisioterapeuta deve os treinos e os jogos do atleta para conhecer as exigências específicas da modalidade esportiva realizada e identificar as causas e fatores de risco de uma possível lesão.
Um roteiro objetivo e claro para avaliação fisioterapeutica na pré-temporada de um atleta seria:
  • Identificação do atleta: modalidade esportiva, posição (em esportes de equipe), idade, sexo, membro dominante
  • Histórico de lesões, seus respectivos tratamentos e resultados
  • Queixas atuais, se existentes realizar uma avaliação aprofundada
  • Análise postural
  • Podologia
  • Avaliação isocinética (dinamômetro), principalmente dos músculos mais utilizados durante a prática esportiva
  • Testes específicos funcionais: amplitude e velocidade de movimento, estabilização articular, compensação muscular acessória
  • Avaliação proprioceptiva, principalmente de membros inferiores
  • Eficiência e consciencia da musculatura estabilizadora (transverso do abdome, glúteo máximo, trapézio inferior, vasto medial)
  • Testes cardiorrespiratórios específicos
Não é raro um atleta omitir durante a anamnese relatos sobre sua condição física ou queixas atuais, fatos que podem ser trazidos à tona durante uma avaliação física criteriosa. Nesses casos, não se deve julgar o atleta e recriminá-lo. É necessário, todavia, ganhar a sua confiança e alertá-lo dos riscos de lesões que sua condição atual poderá causar.

5.6 Perfil do fisioterapeuta desportivo

O funcionamento básico para um bom profissional na área desportiva são exatamente os conhecimentos básicos de anatomia, cinesiologia, fisiologia humana e biomecânica. O profissional, inevitavelmente, estará sujeito a inúmeras e constantes pressões e cobranças em termos ao resultado do seu tratamento, para um retorno funcional e no menor tempo possível do atleta à sua prática esportiva.
O trabalho do fisioterapeuta desportista é muito diferente do trabalho de um fisioterapeuta comum, pois tudo tem que ser muito rápido e funcionalmente mais efetivo, pois o atleta, mais do que qualquer outro indivíduo, precisará todas as funções do seu corpo no máximo de potencia e amplitude para execução perfeita de todos os movimentos.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Adaptações hormonais aos exercícios


1 Organização do sistema endócrino
  • Hormônios
  • Especificidade hormônio-célula alvo
  • Especificidade hormônio-receptor
  • Efeitos dos hormônios sobre as enzimas
  • Fatores que determinam os níveis hormonais
  • Padrões de liberação hormonal

Hormônios da hipófise anterior
Hormônio
Órgão alvo
Hormônios secundários
Lactogênio (prolactina)
Mama

Gonadotrópicos (FSH, LH)
Ovários
Estrogênio, progesterona
Testículos
Testosterona
ACTH (corticotropina)
Córtex suprarrenal
Cortisol
Aldosterona
Tireotropina
Tireóide
Tiroxina (T4)
Tri-iodotironina (T3)
Crescimento (somatotropina)
Muitos órgãos

Endorfinas
Muitos órgãos e tecidos


2 Hormônio do crescimento – GH (forma de texto)
Entre suas ações diretas estão as ações antiinsulina. Dificulta a captação da glicose para manter o nível sanguíneo de açúcar e, no tecido adiposo, libera triacilglicerol.
Sua ação indireta é promover o anabolismo. Ele promove a liberação de somatomedinas no fígado e em outros órgãos. Seus efeitos não esqueléticos são o aumento da síntese protéica e o crescimento celular. Seus efeitos esqueléticos são a maior formação de cartilagem e o crescimento esquelético.
  • A Atividade física: eleva a quantidade de hormônio secretado em cada pulso; estimula a liberação de isoformas com meia-vida mais longas; beneficia o crescimento e a remodelagem do osso, músculo e do tecido conjuntivo; otimiza a mistura de combustível durante o exercício, reduzindo a captação tecidual de glicose, aumentando a mobilização de ácidos graxos livres e acelerando a glicogênese hepática; preserva a concentração plasmática de glicose para o bom funcionamento muscular e do SNC;

3 Prolactina
  • Exercício agudo: os níveis de prolactina aumentam com as altas intensidades do exercício e retornam ao nível basal dentro de 45 min. A liberação repetida do hormônio pode inibir a função ovariana e ocasionar alterações no ciclo menstrual.
  • Exercício crônico: os níveis de prolactina em corredores do sexo masculino eram em média inferiores aos de uma pessoa sedentária.

4 Gonadotrópicos
  • Exercício agudo: a concentração de LH aumenta antes do início do exercício agudo e alcança o pico durante a recuperação.
  • Exercício crônico: a atividade física regular deprime as respostas dos hormônios reprodutivos de homens e mulheres.
    • Mulheres: alteração dos níveis de LH e FSH em diferentes períodos do ciclo menstrual

5 Tireotropina
  • Exercício agudo: Nem sempre a produção de TSH aumenta durante a realização do exercício, mesmo este sendo relacionado ao metabolismo corporal

6 Adrenocorticotrófico
  • Exercício agudo: os níveis podem aumentar proporcionalmente à intensidade e a duração do exercício. A atividade física de alta intensidade pode favorecer a liberação de inibidores de ACTH.
  • Exercício crônico: o treinamento faz aumentar a liberação de ACTH durante a atividade física, o que promove a atividade das glândulas suprarrenais de forma a aumentar o catabolismo das gorduras e poupar o glicogênio.

7 Tireoidianos
  • Exercício agudo: níveis de T4 livres aumentam em 35%
  • Exercício crônico: resposta coordenada hipofisárea-tireóidea que reflete a maior renovação dos hormônios tireoideanos

8 Hormônios da hipófise posterior – ADH (antidiurético)
  • Exercício agudo: estímulo para a secreção de ADH, o que ajuda a conservar os líquidos corporais e, consequentemente, contribui para a modulação eficiente da resposta cardiovascular do exercício
  • Exercício crônico: não produz alteração nos níveis de liberação de ADH, contudo a concentração de ADH diminui com o treinamento ao exercitar-se com a mesma intensidade sub-máxima absoluta

9 Hormônios paratireoidianos
  • Exercício agudo: aumenta a liberação do hormônio, o que contribui sobre o crescimento da massa óssea
  • Exercício crônico: preserva a massa óssea durante o envelhecimento

10 Hormônios suprearrenais – epinefrina e norepeinefrina
  • Exercício agudo: induz maior produção de epinefrina, proporcionalmente a duração e intensidade do exercício físico
  • Exercício crônico: a produção dos hormônios cai drasticamente nas primeiras semanas de treinamento. Acontecendo também bradicardia e uma menor elevação dos níveis de PA durante o exercício submáximo

11 Hormônios suprarrenais – aldosterona
  • Exercício agudo: é necessário atividades físicas superiores a 45 min para se observar o efeito deste hormônio, que é na recuperação
  • Exercício crônico: o treinamento não interfere nos níveis deste hormônio

12 Hormônios suprarrenais – cortisol
  • Exercício agudo: a renovação do cortisol é proporcional à intensidade e duração da atividade física. O hormônio acelera a lipólise, a cetogenese e proteólise e tem papel fundamental na recuperação e reparo dos tecidos
  • Exercício crônico: aumento no volume das glândulas suprarrenais

13 Hormônios pancreáticos - insulina
  • Exercício agudo: inibição na produção de insulina, promovendo a obtenção de energia pelos ácidos graxos livres mobilizados pelos adipócitos

14 Hormônios pancreáticos – glucagon
  • Exercício agudo: a diminuição da concentração de glicose plasmática durante o exercício estimula a produção de glucagon