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sábado, 25 de abril de 2015

Ressuscitação cardiopulmonar

A parada cardiorrespiratória (PCR) é a cessação da circulação e da respiração em um paciente inconsciente. A interrupção súbita das funções cardiopulmonares representa uma emergência médica extrema, cujos resultados podem ser a lesão cerebral irreversível e até mesmo a morte.
A PCR pode ser considerada como um problema mundial de saúde pública. A Sociedade Brasileira de Cardiologia estima que acontecem cerca de 200.000 PCRs ao ano, sendo metade dos casos ocorrendo em ambiente hospitalar e a outra metade em ambientes como residências, shoppings centers, aeroportos, estádios...
A taxa de sobrevida após uma PCR varia de 2% a 49%, e depende do ritmo cardíaco inicial e do início da reanimação precoce, visto que a cada minuto que o paciente esteja em PCR, 10% de probabilidade de sobrevida seja perdida. Sabe-se que esta taxa de sobrevida pode dobrar, e até triplicar, quando a reanimação cardiopulmonar é realizada com qualidade.
Considerando essa situação, o Ministério da Saúde vem desde 2008 oferecendo treinamento de Suporte Básico de Vida (SBV) aos profissionais da saúde. Contudo faz-se necessário que este treinamento seja difundido também entre leigos, para possibilitar o atendimento precoce em situações de emergência.

História

A documentação mais antiga de uma ressuscitação cardiopulmonar (RCP) data do Velho Testamento, que descreve como o profeta Eliseu ressuscitou uma criança aparentemente morta ao soprar em sua boca.
Contudo, apenas em meados de 1960 é que a ressuscitação cardiopulmonar começou a ser investigada, com o estudo de Kouwenhoven, Jude e Knickerbocker, onde foi combinada as manobras de compressão torácica, ventilação e desfibrilação em pacientes em PCR. Nesse ano, em um simpósio organizado pelo Corpo Docente de Medicina e Cirurgia do Estado de Maryland (EUA) se consagrou que "esses componentes não poderiam ser mais considerados como elementos isolados, e sim como parte de uma abordagem completa para ressuscitação". E assim surgia a RCP moderna.
Naquele momento, no entanto, a ressuscitação era considerada um procedimento estritamente médico, sendo que qualquer outro profissional da saúde era proibido de realizar a prática, de modo que seu impacto era limitado.
Gradualmente, os pontos de vista foram mudando e, em 1974, a American Heart Association publicou suas primeiras diretrizes destinadas a todos os profissionais da saúde e também a leigos.
Contudo, apenas em 1992 as diretrizes da RCP se tornaram internacionais. Em uma conferência realizada em Dallas pela American Heart Association, decidiu-se criar uma comissão internacional de especialistas dos cinco continentes a fim de padronizar as técnicas de RCP. Esta comissão foi denominada Aliança Internacional dos Comitês de Ressuscitação (International Liaison Committee on Resuscitation - ILCOR).
O último Consenso Científico da ILCOR é datado em 2010 e enfatizou a primazia das compressões torácicas como sendo a chave para o sucesso da ressuscitação em casos de PCR, com recomendações adicionais em atrasos na desfibrilação de pacientes em fibrilação ventricular ou taquicardia ventricular sem pulso.
As diretrizes brasileiras de RCP de 2012 são baseadas no Consenso da ILCOR 2010.

Objetivo

A RCP tem como principal objetivo restabelecer o fluxo sanguíneo oxigenado à todo o organismo, principalmente ao cérebro e coração, até que ocorra o restabelecimento das funções cardíacas e respiratórias espontâneas. 

CABD primário

O atendimento na PCR é realizado em várias etapas, desde o reconhecimento dos sinais de parada até às manobras mais avançadas de RCP. Usa-se a sigla CABD para descrever de forma simplificada os passos do atendimento de suporte básico de vida.

  • C - Checar responsividade e respiração da vítima; Chamar por ajuda; Checar o pulso; Compressões torácicas
  • A - Abertura das vias aéreas
  • B - Boa ventilação
  • D - Desfibrilação


Esse vídeo da American Heart Association apresenta de maneira bem humorada como deve ser feito o CABD primário. A música dos BeeGees tem a frequência ideal das compressões torácicas realizadas por minuto.



Etapas

1 - Segurança do local
Ao encontrar uma pessoa inconsciente, primeiramente, deve-se avaliar as condições de segurança do local em que ela se encontra. Caso o local não seja seguro (como um prédio em chamas ou uma rodovia) é necessário remover a vítima até um local seguro ou viabilizar o local onde ela se encontra.

2 - Checar responsividade e respiração da vitima
Primeiramente, deve-se checar a responsividade da vítima ao comando verbal ou, se necessário, o doloroso. Se a vítima não responder, avalie sua respiração, observando se há elevação do tórax a aproximadamente cada 10 segundos. Se a vítima estiver respirando, permaneça ao seu lado e observe sua evolução. Caso a vítima não esteja respirando, chame por ajuda imediata e siga com as etapas da RCP.
Em casos de acidentes que causem hipóxia (afogamento, overdose de droga, trauma) e em crianças, a RCP deve ser iniciada imediatamente após a checagem dos níveis de consciência e respiração. Só em seguida chama-se o socorro especializado.

3 - Chame por ajuda
Antes de mais nada, chame por ajuda próxima. Qualquer leigo pode lhe auxiliar nas medidas necessárias para o suporte básico de vida. Peça para que essa pessoa chame ajuda especializada e tente providenciar um desfibrilador (em ambientes como estádios, aeroportos e rodoviárias existe um desfibrilador disponível para essas emergências). 
Em emergências extra-hospitalares deve-se ligar para unidades de socorro competentes, como o SAMU (Sistema de Atendimento Móvel de Urgência) e a PRF (Polícia Rodoviária Federal). Em ambiente intra-hospitalar deve-se acionar a equipe de parada.

4 - Cheque o pulso
Deve-se checar o pulso de artérias de grande calibre, como as carótidas e as femorais. A checagem não deve demorar mais que 10 segundos, visto que quanto mais rápido se iniciar a ressuscitação maior as chances da vítima. 
Caso o pulso seja sentido, deve-se iniciar a ventilação do indivíduo. Aplique uma ventilação a cada 6 segundos, mantendo desta forma um ritmo de 12 incursões respiratórias por minuto. Continue checando o pulso a cada 2 minutos até o retorno da respiração espontânea do paciente ou instalação de ventilação mecânica.
Caso não seja possível verificar o pulso, comece imediatamente as compressões torácicas associada com a ventilação das vias aéreas.
Estudos mostram que em situações de emergência, tanto leigos como profissionais da área de saúde, apresentam dificuldade em aferir o pulso de uma vítima, sendo desda forma a checagem do pulso uma etapa dispensável na RCP.

5 - Compressões torácicas
Compressões torácicas são efetivas, devendo ser realizadas em qualquer paciente em PCR. As compressões irão bombear sangue oxigenada para todo o organismo, principalmente para órgãos vitais como o cérebro e o coração.
Para a realização da compressão torácica, se posicione ao lado da vítima e procure manter estabilidade nos membros inferiores aumentando a base de apoio do seu corpo. Coloque a região hipotenar de uma mão sobre o esterno do paciente e a outra mão sobre a primeira e com os braços estendidos comece a realizar as compressões usando o peso do próprio corpo.
Realize compressões rápidas, de no mínimo 100 compressões/minuto, e com profundidade de aproximadamente 5cm. É importante que a cada compressão o tórax retorne ao seu diâmetro normal.
A cada dois minutos deve-se avaliar a presença de pulso, que indica retorno das funções cardíacas.
As compressões cardíacas devem ser ininterruptas, salvo se a vítima se movimentar (o que indica retorno das funções vitais), na troca de socorristas, na desfibrilação e posicionamento de via aérea avançada.

6 - Abertura das vias aéreas
Para não retardar o início das compressões torácicas, a abertura das via aéreas pode ser realizada após aproximadamente 30 compressões aplicadas. Deve-se inclinar a cabeça do indivíduo para trás com elevação do queixo e abertura da boca.
Caso a vítima apresente alguma suspeita de trauma na região cervical, deve-se realizar a manobra de  elevação do ângulo da mandíbula.

7 - Ventilação
A ventilação é essencial para a a manutenção da vida e a redução de lesões cerebrais irreversíveis.
Caso o socorrista esteja realizando o trabalho sozinho preconizasse duas incursões respiratórias a cada 30 compressões torácicas. Caso seja mais de um socorrista, o indicado é que a ventilação e as compressões sejam realizadas de maneira concomitantes. 
As ventilações devem ser realizadas a cada 6 segundos, respeitando o padrão respiratório normal de 12 incursões por minuto. Sendo que a insuflação torácica deve ser realizada de maneira rápida, por volta de 1 segundo, enquanto nos 5 segundos restantes acontece a expiração.
A hiperventilação é contraindicada, pois pode aumentar a pressão intratorácica e diminuir a pré-carga e, consequentemente, diminuir o débito cardíaco e a sobrevida. Além disso, aumenta o risco de insuflação gástrica, podendo causar regurgitação e broncoaspiração de conteúdo gástrico.
Embora a contaminação por ventilação boca a boca sejam mínimas, o uso de dispositivos ventilatórios que funcionam como mecanismo de barreira devem ser usados, para garantir a integridade física do socorrista:
  • Lenço facial e máscara antirrefluxo: dispositivo descartável, dotado de uma válvula unidirecional, que impede o retorno do ar pela boca da vítima. O socorrista deve ficar atento para o lado indicado para a vítima, caso contrário não será possível ventilar o paciente. O lenço facial deve ser vedado ao máximo à boca e, na hora da insuflação, o nariz da vítima deve ser vedado, para evitar escape de ar.
  • Máscara de ambu: esse tipo de máscara envolve nariz e boca do paciente. Possui uma válvula unidirecional e um ambu (que consiste em uma bolsa de PVC que ao ser comprimida gera um fluxo de ar). Deve-se atentar para o posicionamento e vedação da máscara ao rosto da vítima, para que não tenha nenhum escape de ar. O ambu pode ainda ser conectado a um suporte de oxigênio, e dessa maneira aumentar a FiO2 ofertada à vítima.
  • Ventilação com via aérea avançada: consiste na utilização de materiais mais invasivos para suporte ventilatório. A máscara laríngea (que é uma máscara que deve ser posicionada dentro da boca do paciente), a entubação orotraqueal e a traqueostomia são exemplos de vias aéreas avançadas e só podem ser instaladas por equipe de suporte especializada.

8 - Desfribilação
A desfibrilação consiste na administração de uma corrente elétrica com o intuito de regularizar o trabalho cardíaco. Contudo, ele só apresenta resultados significativos em apenas dois grupos de PCR: a fibrilação ventricular e a taquicardia ventricular sem pulso. 


Esse tipo de comportamento cardíaco é muito comum em PCRs extra-hospitalares e a desfibrilação precoce é o tratamento mais indicado. Nos primeiros 3 a 5 minutos de uma PCR em fibrilação ventricular o coração se encontra em um ritmo de fibrilação grosseira, estado propício pra receber a desfibrilação. Com o passar do tempo, entretanto, a amplitude da fibrilação ventricular diminui por causa da depleção do substrato energético do miocárdio, diminuindo também as chances de sobrevida da vítima.
A desfibrilação pode ser realizada por um equipamento manual (usado somente pelo médico) e pelo DEA, que pode ser usado por qualquer leigo.
  • DEA: equipamento portátil capaz de interpretar o ritmo cardíaco, selecionar o nível de energia e carregar automaticamente, cabendo ao operador apenas acionar o botão de choque, quando indicado. No momento da análise do ritmo cardíaco e da aplicação do choque o próprio aparelho solicita que os socorristas se afastem do paciente. As compressões devem ser retomadas logo após o choque.
  • Desfibrilação manual: Utiliza-se a máxima energia do aparelho, 360J no desfibrilador monofásico e de 120J a 200J no desfibrilador bifásico. Os choque sucessivos devem ser intercalados por dois minutos de compressão torácica e ventilação. 
É de extrema importância que na hora da descarga elétrica não exista nenhum socorrista ou qualquer outra pessoa em contato direto e indireto (maca, cama, soro, roupas...) com a vítima, pois existe o risco de condução elétrica. A intensidade do choque aplicado pelo desfibrilador pode alterar o ritmo cardíaco da pessoa que esteja em contato com a vítima e, neste caso, pode acontecer um nova vítima.

Outras técnicas em RCP

Existem algumas técnicas que também podem ser utilizadas na ressuscitação de pacientes em PCR, contudo estas técnicas não possuem nível de evidência em pesquisa elevados e, por esse motivo, não são reconhecidas pela ILCOR.
  • Massagem cardíaca interna: indicada para PCRs em cirurgias de tórax e abdome abertos. Consiste na massagem cardíaca direta e pode proporcionar maior pressão de perfusão coronariana, aumento da perfusão cerebral, maior fluxo sanguíneo cerebral, maior taxa de ressuscitação e sobrevida.
  • Compressão torácica e abdominal intercaladas (CTAI): consiste na compressão intercalada, mas de mesma intensidade, nas regiões torácica e abdominal. Estudo indicam que a CTAI aumenta o retorno venoso e a pressão diastólica da aorta. Contudo, estudos em PCRs extra-hospitalares não apresentaram resultados significativos.
  • Tosse: neste caso a vítima ainda deve apresentar certo nível de consciência, o que a inviabiliza na maioria dos casos. A tosse vigorosa pode produzir pressões intratorácicas e sistêmicas superiores à RCP padrão.
  • Soco precordial: de acordo com alguns relatos, essa técnica pode reverter a taquicardia ventricular sem pulso. Entretanto, não existem estudos científicos mais aprofundados do assunto.

Diagnóstico da PCR

O diagnóstico da PCR compreende o reconhecimento do evento, bem como a identificação do mecanismo ou ritmo da parada, sua etiologia e as intervenções para reversão do paciente em PCR. A identificação do rimo e o histórico clínico do paciente permitem uma conduta sem perda de tempo, visto que se fazem necessárias ações rápidas em uma PCR. 




Referências

GONZALEZ MM, et al. I Diretriz de Ressuscitação Cardiopulmonar e Cuidados Cardiovasculares de Emergência da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Arq. Bras. Cardiol. vol. 101, n° 2, supl. 3, 2013. 

ARAUJO LP; SILVA AL; MARINELLI NP; POSSO MBE; ALMEIDA LMN. Conhecimento da equipe de enfermagem sobre o protocolo de ressuscitação cardiopulmonar no setor de emergência de um hospital público. Rev Univasp, vol. 18, nº 32, 2012.

TOURINHO FSV; MEDEIROS KS; SALVADOR PTCO; CASTRO GLT; SANTOS VEP. Análise de vídeos do You Tube sobre suporte básico de vida e reanimação cardiopulmonar. Rev Col Bras Cir, vol. 39, nº 4, 2012. 

RUBULOTTA F; RUBULOTTA G. Ressuscitação cardiopulmonar e ética. Rev Bras Ter Intensiva, vol. 25, n° 4, p. 265-269, 2013. 

SILVA FV; ALMEIDA FC; SILVA JR; SILVA RO; SANTIAGO PSN. Importância do treinamento  em reanimação cardiopulmonar para profissionais de saúde. EFDeports, vol. 16, n° 156, 2011. 

sábado, 6 de abril de 2013

Adaptações cardiovasculares ao exercício físico


O exercício físico caracteriza-se por uma situação que retira o organismo da sua homeostase, pois implica no aumento da demanda energética da musculatura exercitada e, consequentemente, do organismo como um todo. Desta maneira, para suprir a demanda metabólica, várias adaptações fisiológicas são necessárias.
Para que esta homeostasia seja mantida, tanto o sistema respiratório quanto o sistema cardiovascular devem funcionar em conjunto liberando quantidades suficientes de oxigênio e nutrientes e removendo produtos do metabolismo de outros tecidos do organismo.
O aumento da necessidade de oxigênio como uma conseqüência do exercício físico é um dos principais desafios da homeostasia metabólica, uma vez que a demanda pode ser de 15 a 25 vezes maior que a demanda no repouso.

1 Adaptações cardiovasculares agudas ao treinamento

As respostas cardiovasculares agudas variam de acordo com o tipo, intensidade e duração do exercício e a massa muscular relacionada.

1.1 Tipo de exercício
  • Exercícios estáticos – isométricos: observa-se aumento da FC com manutenção ou até redução do VS e pequeno acréscimo do DC. Em compensação, verifica-se aumento da resistência vascular periférica, que resulta na elevação da PA sistêmica. Esses efeitos ocorrem porque a contração muscular mantida durante a contração isotônica promove obstrução mecânica do fluxo sanguíneo muscular, o que faz com que os metabólicos produzidos se acumulem, ativando quimiorreceptores musculares que promovem aumento expressivo da atividade nervosa simpática.
  • Exercícios dinâmicos – isotônicos: durante este tipo de exercício, as contrações musculares são seguidas da movimentação articular, o que impede o aumento da resistência vascular periférica pelo bloqueio vascular imposto pela contração muscular, além da produção de metabólicos musculares que promovem a vasodilatação. Neste tipo de exercício, também se observa aumento da atividade nervosa simpática, que é desencadeada pela ativação do comando central, mecanorreceptores musculares e, dependendo da intensidade do exercício, metaborreceptores musculares, o que leva ao aumento da FC, do VS e do DC.

Embora as respostas cardiovasculares sejam distintas dependendo do tipo de exercício escolhido, na prática os exercícios realizados possuem características mistas, de modo que as respostas cardiovasculares irão depender da contribuição de cada um desses componentes na atividade. Por exemplo, os exercícios de musculação, quando executados em alta intensidade, apesar de serem feitos de forma dinâmica, apresentam componente isométrico bastante elevado, portanto, irão desencadear alterações referentes a este tipo de exercício. Em contrapartida, os exercícios aeróbicos apresentam mais características dinâmicas que estáticas, o que ocasionará alterações mais relacionadas com os exercícios dinâmicos.

1.2 Intensidade X duração
Quanto maior a intensidade, maior as alterações.
Quanto maior a duração com alta intensidade, maior as alterações.
Se a intensidade for inferior ao limiar anaeróbio, as alterações não irão acontecer, mesmo se o exercício for realizado em longa duração.

1.3 Massa muscular
Quanto maior a massa muscular exercitada de forma dinâmica, maior é o aumento da FC, mas menor é o aumento da PA.

1.4 Hipotensão pós-exercício
Caracteriza-se pela redução da PA durante o período de repouso, fazendo com que os valores pressóricos observados pós-exercício sejam inferiores aos valores antes do exercício ou até mesmo menor que os valores medidos em um dia controle, sem exercícios físicos.
Para que a hipotensão pós-exercício tenha importância clínica, é necessário que ela tenha grande magnitude e/ou perdure por mais de 24h.
A hipotensão pós-exercício é mais comum em exercícios aeróbios com intensidade leve a moderada, porém em longas durações. Contudo, exercícios resistidos de baixa ou alta intensidade podem reduzir a PA sistólica.
Independente do mecanismo hemodinâmico sistêmico, a resistência vascular estará reduzida após o exercício e isto se deve à vasodilatação muscular mantida após o exercício.

2 Adaptações cardiovasculares crônicas ao exercício


Em resposta ao treinamento físico, algumas alterações cardiovasculares acontecem. Uma resposta aguda é aquela que servirá tanto para uma pessoa sedentária quanto para um atleta ao realizar a mesma atividade física. A resposta crônica, por sua vez, é a adaptação da estrutura e sua função após a realização contínua de determinada atividade física e isso se dá através do treinamento.

2.1 Volume plasmático
O treinamento de endurance faz o aumentar o volume sanguíneo, sendo que esse efeito é maior com o treinamento intenso.
  • O exercício aumenta a liberação do hormônio antidiurético e da aldosterona, o que impede a dispersão de líquidos
  • O exercício aumenta a quantidade de proteínas plasmáticas, principalmente da albumina, que são responsáveis pela pressão osmótica do sangue
  • O número real de eritrócitos aumenta com o treinamento de endurance, contudo, se comparada com o aumento do volume plasmático, este diminui
A relação entre o aumento do volume plasmático e do volume celular resultam em uma aumento da porção líquida sanguínea, o que reduz a viscosidade do sangue, o que, consequentemente, pode facilitar o movimento do sangue nos vasos sanguíneos.

2.2 Hipertrofia excêntrica
O músculo cardíaco, assim como o músculo esquelético, sofre hipertrofia como resultado do treinamento de endurance crônico. O ventrículo esquerdo, que é a câmara cardíaca que tem trabalho mais intenso, é quem sofre as maiores alterações, podendo ter aumento de seu volume em até 85% de seu tamanho normal.

2.3 Volume de ejeção
Como resultado do treinamento de endurance, o volume de ejeção apresenta um aumento global. A massa muscular ventricular aumentada pode produzir uma contração mais forte.
Este aumento de contratibilidade aumenta, consequentemente, a retração elástica do miocárdio, que resulta em um maior enchimento diastólico. Uma maior quantidade de sangue entra no ventrículo esquerdo e uma maior porcentagem do sangue que entra é expulsa do ventrículo a cada contração, aumentando assim o volume de ejeção.
  • Mecanismo de Frank-Starling: o principal fator no controle do volume de ejeção é a magnitude do volume de distensão. Quando o ventrículo se distende mais, ele se contrai com mais força.
  • Aumento do volume plasmático: a maior quantidade de sangue que entra no ventrículo aumenta a distensão das paredes ventriculares.

2.4 Frequência cardíaca
  • De repouso: Pode diminuir acentuadamente como resultado do treinamento de endurance. A freqüência cardíaca de repouso pode diminuir cerca de 1bpm por semana, durante as primeiras semanas de treinamento. Os mecanismos reais para essa diminuição não são totalmente conhecidos, mas parece que o treinamento aumenta a atividade parassimpática no coração, ao mesmo tempo em que diminui a atividade simpática.
  • Sub-máxima: o maior condicionamento aeróbico resulta numa freqüência cardíaca proporcionalmente menor numa determinada taxa de trabalho. Essas diminuições indicam que o coração se torna mais eficiente com o treinamento.
  • Máxima: tende a ser estável e geralmente permanece relativamente inalterada após um treinamento de endurance.

2.5 Recuperação da freqüência cardíaca
Após uma atividade física a freqüência cardíaca não volta ao seu estado de repouso imediatamente. Em vez disso, ela permanece alta por algum tempo, retornando lentamente ao seu nível de repouso.
Após um período de treinamento, a freqüência cardíaca volta muito mais rápido ao seu nível de repouso que antes do treinamento. Desta maneira, sua mensuração tem sido utilizada como indicador das alterações cardiovasculares ao exercício.
Vários fatores, além do nível de treinamento podem alterar a recuperação da freqüência cardíaca de repouso:
  • Ambientes quentes ou altitudes elevadas
  • Alta responsividade simpática

2.6 Interações entre a freqüência cardíaca e o volume de ejeção
Durante o exercício, a freqüência cardíaca combina com o volume de ejeção para fornecer um débito cardíaco adequado para a taxa de trabalho a ser realizada.
  • Se a freqüência cardíaca for muito elevada, a diástole é reduzida e o volume de ejeção pode ser diminuído
  • Se a freqüência cardíaca for baixa, a diástole é maior e o volume de ejeção aumenta
A combinação do volume de ejeção aumentado e da frequência cardíaca diminuída é uma forma muito eficaz para que o coração satisfaça as demandas do corpo. O coração despende menos energia contraindo mais forte e com menos freqüência em resposta ao treinamento que se a freqüência cardíaca aumentasse.
Alterações da freqüência cardíaca e do volume de ejeção em resposta ao treinamento ocorrem concomitantes e com o mesmo objetivo: aumentar a quantidade de sangue oxigenado expulso do coração com o menor gasto energético.

2.7 Débito cardíaco
Quando em repouso ou durante um exercício submáximo, o débito cardíaco não altera muito após o treinamento de endurance. Contudo, o débito cardíaco aumenta com taxas máximas de trabalho. Esse aumento é resultante principalmente do aumento do volume de ejeção.

2.8 Fluxo sanguíneo
Músculos ativos necessitam de quantidade de oxigênio e de nutrientes consideravelmente maiores. À medida que os músculos se tornam mais bem treinados, o sistema cardiovascular se adapta para aumentar o fluxo de sangue para a região. Quatro fatores são responsáveis por esse aumento de suprimento:
  • Aumento da capilarização muscular
  • Maior abertura dos capilares existentes nos músculos treinados
  • Redistribuição sanguínea mais efetiva
  • Aumento do volume sanguíneo

2.9 Pressão arterial
Durante os exercícios de endurance observa-se um aumento da pressão arterial sistólica e manutenção ou redução da pressão diastólica. No entanto, a pressão arterial de repouso, tanto sistólica como diastólica, diminuem. Os mecanismos para essa redução ainda são desconhecidos.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Exercícios aeróbicos e os benefícios cardiovasculares


O tratamento fisioterapêutico, principalmente através do exercício aeróbio, promove alterações anatômicas e funcionais no sistema cardiovascular.
Estudos têm demonstrado a melhora tanto da performance quanto da geometria cardíaca de indivíduos submetidos ao treinamento físico, caracterizado principalmente por exercícios aeróbicos. Esta melhora foi observada em indivíduos saudáveis submetidos a uma situação de sedentarismo importante e indivíduos acometidos por insuficiência cardíaca que já apresentavam alterações geométricas no coração.
O treinamento físico promove melhora na velocidade de relaxamento da musculatura cardíaca, através do aumento da síntese da proteína transportadora de Cálcio (SERCA-2), do aumento da concentração de Cálcio e da sensibilidade ao Cálcio pelos cardiomiócitos.
Programas de fisioterapia cardiovascular apresentam como principal objetivo a melhora da função cardíaca, vascular, respiratória e músculoesquelética. Esta gama de objetivos torna os programas de fisioterapia cardiovascular aplicáveis a diferentes doenças que apresentam diferentes comprometimentos.

2.1 Alterações cárdio-morfométricas em indivíduos que não apresentam alterações cardíacas
  • O aumento das câmaras cardíacas,
  • Aumento da espessura do septo interventricular e da parede posterior não superior a 13 mm,
  • Aumento da fração de ejeção
  • Melhora ou manutenção da função diastólica ventricular

Curiosidades científicas
  • Os estudos que a abordaram o impacto dos programas de exercício físico sobre a morfometria e função cardíaca avaliados através do ecocardiograma em pacientes pós-AVE são escassos. Entretanto, a eficiência destes programas em animais e outras populações já está bem documentado.