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terça-feira, 11 de junho de 2013

Síndrome do imobilismo

A síndrome do imobilismo trata-se de um conjunto de alterações que ocorrem em indivíduos que permanecem acamados por um longo período. Essas alterações podem afetar todos os sistemas do corpo e seus efeitos comprometem a funcionalidade do paciente.
Considera-se que de 7 a 10 dias de imobilização é um período de repouso, não trazendo grandes alterações sistêmicas. De 12 a 15 dias já é considerada imobilização propriamente dita, podendo já apresentar algumas alterações na funcionalidade do organismo. Períodos de imobilização acima de 15 dias já são considerados decúbitos de longa duração e podem apresentar alterações sistêmicas irreversíveis, caso não tratadas corretamente.
Independente da condição que levou o paciente ao decúbito prolongado, esta síndrome evolui para problemas circulatórios, dermatológicos, respiratórios, digestórios, neuromioarticulares e, muitas vezes, psicológicos.

1 Efeitos sobre o aparelho locomotor

Geralmente é sistema mais acometido pelo imobilismo. A inatividade afeta diretamente a força muscular, a resistência à fadiga e a força exercida pela gravidade nos ossos e tecidos de apoio. Estima-se que para cada semana de imobilização completa no leito, o paciente pode perder de 10 a 20% do seu nível de força muscular inicial, sendo que, por volta de quatro semanas de imobilização o paciente terá perdido aproximadamente 50% de sua força total.
As principais alterações musculares relacionadas ao imobilismo são:
  • Diminuição  do nível de glicogênio e ATP no ventre muscular;
  • Comprometimento da irrigação sanguínea muscular;
  • Baixo débito de O2, com consequente diminuição na capacidade oxidativa;
  • Diminuição da síntese proteica;
  • Atrofia das fibras musculares;
  • Diminuição do número de sarcômeros;
  • Diminuição do torque;
  • Incoordenação gerada pela fraqueza muscular generalizada;
  • Dor/desconforto.
Os primeiros músculos afetados pela imobilidade são os músculos dos membros inferiores e do tronco, que tem como função principal resistir à força da gravidade.

1.1 Contraturas
As contraturas são outro efeito da imobilização, podendo envolver músculos e outros tecidos moles. É definida como perda de amplitude articular de movimento devido à limitação articular, muscular ou de outros tecidos moles.
Três fatores desempenham um papel importante no desenvolvimento da contratura:
  • A posição do membro;
  • A duração da imobilidade;
  • Imobilização das partes não afetadas.
Podem ser divididas em três categorias, de acordo com a localização anatômica das mudanças patológicas:

1.1.1 Tecido articular: O líquido sinovial nutre e lubrifica a cartilagem, mas necessita de movimento para que haja a circulação de nutrientes, síntese e degradação da matriz e estimulação dos sensores elétricos e mecânicos da articulação. Com a inatividade, há atrofia da cartilagem com desorganização celular nas inserções ligamentares, proliferação do tecido fibro-gorduroso e, consequente, espessamento da sinóvia e fibrose articular.
1.1.2 Tecido ósseo: É possível observar a diminuição da massa óssea total devido ao aumento da atividade osteoclástica e diminuição da atividade osteoblástica; Também haverá um aumento tardio da excreção de cálcio devido à máxima atividade osteoclástica, tentando suprir a diminuição da massa óssea.

2 Efeitos sobre o sistema tegumentar

No imobilismo é comum encontrarmos atrofia de pele e úlceras de decúbito influenciadas por vários fatores. As úlceras de pressão são o principal exemplo da pele prejudicada pela imobilização, representando uma ameaça direta ao indivíduo, causando desconforto, prolongando o estado patológico e, em alguns casos, podendo até mesmo levar à morte por septicemia.
São definidas como áreas localizadas de necrose celular causada por isquemia, a qual privou os tecidos de oxigênio e nutrientes. Podem ocorrer me qualquer canto do corpo, porém com mais frequência em regiões que possuem pouco tecido adiposo subcutâneo e proeminências ósseas.
  • As úlceras de decúbito ocorrem quando um pressão extrínseca sobre a pele supera a pressão capilar, diminuindo dessa forma o fluxo sanguíneo e a oxigenação tecidual.
  • A idade avançada pode aumentar os riscos, devido as alterações na pele, que incluem a menor espessura da pele e menor vascularização dérmica; retardo da capacidade de cura das feridas; e a redistribuição do tecido adiposo das camadas mais superficiais para as camadas mais profundas.

3 Efeitos sobre o sistema cadiovascular

No imobilismo há um comprometimento do desempenho cardiovascular com aumento da frequência cardíaca de repouso, onde o pulso aumenta um batimento por minuto a cada dois dias de imobilização, refletindo dessa forma na deficiência cardíaca.
O sistema circulatório é incapaz de montar uma resposta simpática adequada, devido à perda do controle do sistema nervoso autônomo simpático. Como resposta a isso, podemos observar um acúmulo de sangue nos membros inferiores, a incapacidade de enchimento dos ventrículos e consequente queda na perfusão cerebral.
Além disso, há um aumento da pressão arterial sistólica pelo aumento da resistência periférica. O tempo de ejeção sistólica e o de diástole é diminuído, gerando uma redução do volume sistólico.

3.1 Hipotensão postural
Os sinais e sintomas de hipotensão postural incluem palidez, tontura, sudorese, delírio, decréscimo da pressão sistólica, aumento da frequência cardíaca e decréscimo da pressão de pulso, podendo ocorrer desmaios.

3.2 Trombose venosa profunda (TVP)
A trombose venosa profunda é o bloqueio de uma veia profunda pela formação de um trombo. Pelo fato de o indivíduo estar imobilizado no leito, sem contrair os músculos dos membros inferiores, que pressionam as veias para impulsionar o sangue, o mesmo tende a acumular nas veias inferiores do corpo, causando uma estase no fluxo sanguíneo dos membros inferiores.
Uma suspeita clínica de TVP surge quando há evidência de edema localizado, eritema, dor na panturrilha e tendões palpáveis em pacientes imobilizados.
A principal complicação da TVP é a embolia pulmonar, que pode acontecer se o coágulo formado na trombose se desprender, viajar no sistema venoso e entrar na circulação pulmonar e bloquear um vaso sanguíneo.

4 Efeitos no sistema endócrino

Com o imobilismo há predomínio do catabolismo sobre o anabolismo, o que causa um balanço negativo de nitrogênio, cálcio, fósforo, enxofre, sódio, potássio, entre outros nutrientes importantes. Essa deficiência pode causar alterações hormonais como:
  • Aumento do PTH sérico, provavelmente devido à hipercalcemia da imobilização;
  • Diminuição androgênica durante a espermatogênese;
  • Diminuição dos níveis de GH, ACTH e da produção de catecolaminas.

5 Efeitos no trato gastrointestinal (TGI)

A falta de movimento e estimulação causam alterações em todo o TGI, como: falta de apetite; absorção mais lenta de nutrientes devido à redução da peristalse; e constipação, causada pela redução do volume plasmático e da desidratação provenientes do imobilismo.

6 Efeitos no sistema genitourinário

O esvaziamento da bexiga é comprometido pelo decúbito dorsal, devido a incapacidade de gerar pressão abdominal nesta posição. Além disso, ocorre enfraquecimento dos músculos abdominais e pélvicos e restrição dos movimentos diafragmáticos. A soma desses fatores são responsáveis pela retenção urinária parcial.

7 Efeitos no  sistema respiratório

As complicações da imobilização sobre o sistema respiratório são as mais preocupantes, pois são ameaçadoras à vida. 
Durante a imobilização prolongada ocorre a redução do volume corrente, do volume minuto, da capacidade pulmonar total, da capacidade residual funcional, do volume residual e do volume expiratório forçado. Essa redução pode variar entre 25 a 50% das funções respiratórias normais.
Os movimentos diafragmáticos e intercostais fica diminuído pela perda de força muscular. Como resultado podemos observar uma respiração superficial, uma respiração alveolar reduzida, apresentando um relativo aumento de dióxido de carbono nos alvéolos, que tem como consequência o aumento da frequência respiratória.
A tosse se torna menos efetiva, visto a redução da força muscular abdominal somada à redução da função ciliar, o que dificulta a eliminação de secreções e aumenta os riscos de infecções respiratórias e atelectasias.

8 Abordagem fisioterapêutica

É objetivo fundamental da fisioterapia a busca por meios de proporcionar um retorno das atividades da vida diária no menor tempo possível aos pacientes expostos à imobilização prolongada.
A utilização de técnicas de mobilização passiva, que devem evoluir o mais rápido possível para mobilizações ativas, se mostra fundamental na redução do tempo de imobilização no leito. A mobilização precoce diminui a incidência de TVP e tromboembolismo, além de permitir melhor oxigenação e nutrição dos órgãos internos.
O tratamento fisioterápico de pacientes com imobilização prolongada deve:
  • Estimular a movimentação precoce no leito e a independência nas atividades;
  • Estimular a deambulação;
  • Prevenir complicações pulmonares;
  • Auxiliar na resolução de patologias pulmonares já implantadas;
  • Promover um padrão respiratório mais eficaz;
  • Evitar complicações respiratórias;
  • Reduzir a dor;
  • Manter força muscular e amplitude articular;
  • Evitar encurtamentos, atrofias e/ou contraturas musculares;
  • Melhor mobilidade, flexibilidade, coordenação e equilíbrio;
  • Promover relaxamento;
  • Prevenir e tratar possíveis edemas;
  • Promover a reeducação postural;
  • Prevenção de escaras.

Vale ressaltar que o trabalho na prevenção das complicações do imobilismo deve ser realizado por toda a equipe multidisciplinar, tendo em vista que a síndrome do imobilismo é a principal responsável pela permanência de pacientes nos leitos de hospitais.

terça-feira, 9 de abril de 2013

A marcha humana normal


A marcha é uma tarefa motora que envolve um padrão complexo de contrações musculares em diversos segmentos do corpo. Pensando em termos biomecânicos, a marcha pode ser vista como o deslocamento do centro de gravidade do corpo através do espaço com o menor consumo de energia possível.

*Passo: distância entre o toque do calcanhar de um pé e o toque seguinte do calcanhar do outro pé.

*Passada: distancia entre o toque do calcanhar de um pé e o toque seguinte do calcanhar deste mesmo pé. Uma passada corresponde a dois passos.


1 Requisitos para a realização da marcha

Para que a marcha individual possa ser realizada dentro dos padrões considerados normais, é necessário que quatro critérios estejam em harmonia:
  • Integridade músculo-esquelética: todo o sistema músculo-esquelético, e isso inclui ossos, músculos e articulações, devem estar em perfeito estado físico e integrados entre si;
  • Controle neurológico: o comando cerebral e a resposta muscular devem estar em perfeita sintonia e sem nenhuma condição patológica, assim como a propriocepção do indivíduo e os estímulos visuais, vestibulares, auditivos, sensitivos e motores;
  • Equilíbrio: capacidade de o indivíduo assumir e manter ortostatismo;
  • Locomoção: capacidade de iniciar e manter um movimento.

2 Ciclo da marcha

Período que compreende desde o contato de um pé ao solo até o contato seguinte desse mesmo pé. É a descrição de eventos ocorridos em um membro inferior entre dois contatos consecutivos de um mesmo pé.
O ciclo da marcha é dividido em duas fases bem distintas: a fase de apoio, onde o pé toca o solo; e a fase de balanço, onde o pé não está em contato com o solo.

2.1 Fase de apoio
  • Toque do calcanhar: o ciclo começa assim que o calcanhar do membro referido toca o solo;
  • Fase de contato: fase onde o pé estará plano e em contato com o solo. Nesta fase, o peso corporal está distribuído por toda a superfície plantar;
  • Apoio médio: o pé ainda estará em total contato com o solo, porém o peso corporal será transferido para a região anterior do pé;
  • Saída do calcanhar: fase em que o calcanhar se desprende do solo. Nesta fase, a tíbia é deslocada anteriormente;
  • Propulsão: o pé perde contato com o solo e começa a fase de balanço. Neste momento, o corpo do indivíduo é impulsionado para frente.

2.2 Fase de balanço
  • Aceleração: fase em que o pé se eleva do solo e acelera para frente e para cima;
  • Oscilação média: ápice da aceleração do segmento. Neste momento alcança a maior elevação em relação ao solo;
  • Desaceleração: período em que o segmento desacelera o movimento e segue até que o calcanhar toque o solo e comece outro ciclo da marcha

3 Ativação muscular durante a marcha

As ações musculares na marcha humana ocorrem para: aceleração dos segmentos, frenagem moderada de uma aceleração, amortecimento dos choques e vibrações, e garantia de estabilidade articular.
A ação concêntrica dos músculos está presente tanto no início da fase de apoio como no início da fase de balanço. Serve para a impulsão e aceleração do segmento no inicio da oscilação e na transferência de peso durante a fase de duplo apoio.
A maior parte das ações musculares na marcha são isométricas ou excêntricas. Elas ocorrem para equilibrar e desacelerar os deslocamentos dos segmentos corporais e do centro de gravidade. O trabalho permite a absorção e o armazenamento de energia elástica.

3.1 Tibial anterior
É ativado de forma isométrica. O maior pico de contração desse músculo é durante a fase de apoio inicial. Na fase de contato atua de forma excêntrica durante o aplanamento do pé. Na passagem para o apoio médio, vai atuar de forma concêntrica ajudando no avanço da tíbia. Na fase de balanço, para evitar que o pé caia, vai realizar contração isométrica para mantê-lo na posição neutra.

3.2 Tríceps sural
Sua atividade inicial acontece na fase de contato, com o pé plano, atuando excentricamente para retardar e controlar o avanço da tíbia. Na fase de elevação do calcanhar e propulsão, irão atuar de forma concêntrica para elevar o calcanhar do solo e iniciar a fase de aceleração e balanço.

3.3 Quadríceps
Atuam isometricamente na fase de contato inicial. Já na fase de duplo apoio, atua excentricamente para frear a flexão de joelho. Atuarão de forma concêntrica na fase de desaceleração estendendo o joelho, para iniciar a fase de contato inicial.

3.4 Isquiotibiais
Começam a trabalhar isometricamente na fase de contato inicial, freando a flexão do quadril. Na fase de balanço atua flexionando o joelho na fase de aceleração até a oscilação média. A partir da oscilação média até a oscilação final irá atuar excentricamente, controlando a extensão do joelho e desacelerando o segmento.

3.5 Abdutores
Se contraem para estabilizar a pelve durante a fase de contato inicial e na fase de apoio único.

3.6 Adutores
Se contraem para estabilizar a pelve durante a fase de contato inicial e na fase de aceleração flexionando o quadril.

3.7 Fibulares
Possui atividade semelhante a do tríceps, com a contração iniciando na fase de apoio e indo ao máximo na elevação do calcanhar.

3.8 Glúteo máximo
Começa ao toque do calcanhar ao solo, de forma isométrica, impedindo a flexão da pelve, e vai até a fase de apoio médio, de forma concêntrica, promovendo a extensão da pelve.

3.9 Eretores da espinha
Mantém uma atividade constante durante a marcha, com picos de contração nas fases de contato inicial e apoio médio.

4 Principais deslocamentos do corpo durante o ciclo da marcha

  • Pelve: se inclina, gira e oscila;
  • Membros inferiores: se deslocam nos três planos espaciais, fazendo flexão e extensão, adução e abdução e as rotações mediais e laterais;
  • Cintura escapular: realiza rotação contralateral à pelve, dissociação;
  • Membros superiores: balançam em direção contrária aos movimentos pélvicos e de membros inferiores.

5 Visualização da marcha nos planos

  • Sagital: oscilação vertical da cabeça e pelve;
  • Frontal: oscilação lateral da cabeça e pelve;
  • Horizontal: rotação da cintura escapular e da cintura pélvica.

6 Avaliação fisioterapeutica da marcha

A avaliação da marcha é fundamental na descoberta de causas de patologias músculo-esqueléticas, nas causas de alterações posturais, e no plano de tratamento e treinamento de desportistas.
Existem vários métodos para se avaliar a marcha. É interessante que o paciente seja avaliado antes mesmo de entrar no consultório, visto que ele tenderá a corrigir a passada quando estiver sendo avaliado.

6.1 Exame físico
  • Força muscular: uso da escala de oxford;
  • Controle moto-neural: teste da resposta neuronal a um estímulo externo (reflexo tendíneo);
  • Goniometria: medidas de mensuração da amplitude articular;
  • Antropometria estática e dinâmica: medidas de comprimento de segmentos corporais.

6.2 Vídeo
Paciente estará utilizando o mínimo de roupas possível e será gravado um vídeo da sua deambulação em um espaço durante um período determinado. Serão avaliados os padrões posturais, o posicionamento articular, a mobilidade e dissociação da cintura escapular e pélvica, vício de marcha.
Este exame também pode ser realizado apenas a olho nu.

6.3 Medições temporais
  • Comprimento do ciclo de marcha (passada)
  • Comprimento do passo
  • Largura do passo
  • Cadência – passos/minuto
  • Velocidade – cadência x comprimento do passo

6.4 Eletromiografia
  • Fases de ativação muscular
  • Tempos musculares

6.5 Potência muscular
  • Gerada: concêntrica
  • Absorvida: excêntrica

6.6 Gasto energético
  • Consumo de O2
  • Economia muscular: pode ser conseguida pela estabilidade articular resultante da adequada colocação no espaço + a direção da força de reação ao solo + trabalho ligamentar
  • Alongamento muscular: 3x mais eficiente que seu encurtamento

6.7 Baropodometria
  • Distribuição do peso corporal sob a superfície plantar;
  • Tipo de pé;
  • Desvios patológicos do pé.

Referências

SOUSA, ASP; TAVARES, JMRS. Controle postural e marcha humana: análise multifactorial. Universidade do Porto, 2010.
MANN, L; TEIXEIRA, CS; MOTA, CB. A marcha humana: interferências de cargas e de diferentes situações. Unipar, nol. 12, nº 3, 2008.
MAFRA, NR. Processamento de sinal na avaliação clínica da marcha humana. 2012. 46f. Dissertação (Mestrado integrado em Bioengenharia). Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, Porto, 2012.
SOUSA, ASP; TAVARES, JMRS. A marcha humana: uma abordagem biomecânica. 1º ICH Gaia-Porto, 2010.
PIFFER, G; BALBINOT, A. Desenvolvimento de um protótipo de plataforma de força de pequeno porte para marcha humana. UFRGS, 2010.